A dívida pública dos Estados Unidos (EUA) atingiu a cifra recorde de mais de US$ 40 trilhões, um marco inédito na história do país. Esse crescimento é atribuído principalmente à diminuição de impostos para os mais ricos, à inflação desencadeada pela guerra no Oriente Médio, que elevou os preços dos combustíveis, e às tarifas de importação implementadas durante o governo de Donald Trump. Além desses fatores, os altos gastos militares, que se aproximam de US$ 1 trilhão, e o aumento dos gastos com juros da dívida, que somaram US$ 1,1 trilhão, também contribuíram para esse cenário. Para efeito de comparação, em 2021, os juros consumiram US$ 419 bilhões dos contribuintes, um valor que representa mais do que o dobro do que foi gasto em 2020.
Os especialistas ressaltam que a inflação e a instabilidade econômica provocada pela administração Trump, especialmente em relação às políticas tarifárias, são fatores que pressionam os juros dos títulos do Tesouro dos EUA. Apesar do alarmante número de US$ 40 trilhões, os economistas destacam que não há risco imediato de insolvência, o que significaria a incapacidade de honrar as dívidas. Além disso, eles alertam que a situação fiscal dos EUA pode influenciar a política monetária brasileira, levando o país a manter taxas de juros elevadas.
O professor do Instituto de Economia da Unicamp, Pedro Paulo Zahluth Bastos, observou que o montante da dívida não implica em risco de falência. Ele argumenta que os EUA têm a capacidade de emitir sua própria moeda e que o dólar continua sendo a principal moeda de reserva do mundo. “Um governo assim não quebra contra a vontade. Se o mercado não quiser esses títulos ao preço corrente, o FED pode comprá-los. Foi o que fez em 2020, quando expandiu o balanço em quase US$ 3 trilhões em três meses”, comentou.
Após a divulgação da dívida pública recorde, a Secretaria de Tesouro dos EUA agiu rapidamente, reforçando a posição do governo frente a possíveis críticas. Bastos também mencionou que a compra de ouro pelos bancos centrais tem aumentado desde 2022, o que não está relacionado ao tamanho da dívida, mas sim à política que poderia comprometer a confiança na moeda.
O chamado “risco Trump” é um fator que tem pressionado os rendimentos dos títulos públicos de 30 anos, que alcançaram 5,33% em 18 de agosto, o nível mais alto desde 2007. Essa taxa elevada impacta diretamente os gastos com a dívida no país.
Apesar do aumento nos juros dos títulos de longo prazo, Bastos acredita que o mercado ainda demonstra confiança nos papéis do governo dos EUA. Ele destacou que a China, por exemplo, reduziu seu estoque de títulos americanos de US$ 1,3 trilhão em 2013 para US$ 700 bilhões, sem que isso gerasse consequências significativas. Atualmente, o dólar representa 57% das reservas globais, enquanto o euro ocupa 20% e o yuan, apenas 2%.