O Brasil, com suas vastas dimensões territoriais, possui um sistema de saúde estruturado para atender a todos os cidadãos, desde os que vivem nas áreas mais isoladas da Amazônia até aqueles nas periferias das grandes cidades. Contudo, garantir o acesso a esse direito constitucional é um desafio que vai além da estruturação do sistema. A realidade mostra que a desigualdade no acesso aos serviços de saúde persiste, devido a fatores como subfinanciamento crônico, distâncias geográficas e desigualdades históricas.
No entanto, a saúde digital se apresenta como uma ferramenta essencial para enfrentar esses desafios, permitindo que as pessoas, independentemente de sua localização, tenham acesso a cuidados de saúde de qualidade em tempo hábil. O Brasil já acumula décadas de experiência na implementação de soluções digitais na área da saúde, com um marco inicial nos sistemas de informação da década de 1990. O crescimento deste campo foi acelerado durante e após a pandemia de covid-19, revelando um potencial significativo para a transformação dos serviços de saúde.
Números recentes indicam avanços notáveis no uso de tecnologia no Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, 97% das Unidades Básicas de Saúde (UBS) utilizam prontuário eletrônico, e a integração das UBS na Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) saltou de 11% para 51% em apenas quatro anos, desde a criação da plataforma em 2020. Essas conquistas demonstram que o SUS já possui uma base sólida para investir mais em saúde digital e melhorar o atendimento à população.
Entretanto, o desafio que se apresenta agora é de natureza diferente. É fundamental que as capacidades já desenvolvidas em saúde digital sejam incorporadas de maneira estruturada e sustentável no SUS. O investimento em tecnologia deve ser acompanhado pela criação de condições que garantam a efetiva transformação do cuidado. Isso implica em garantir que a conexão possibilite teleconsultas eficientes e que os sistemas diferentes consigam se comunicar, transformando dados em informações úteis para o atendimento.
Além disso, é necessário estabelecer protocolos nacionais para teleconsulta e telediagnóstico, que ampliem a capacidade de resolução da atenção primária e facilitem o acesso a especialistas, promovendo a integração entre serviços presenciais e remotos. A criação de um financiamento estável permitirá que estados e municípios planejem suas ações a médio prazo. A governança nacional da saúde digital também precisa ser consolidada, de modo que as diversas iniciativas funcionem de forma coordenada.
A saúde digital não pode ser vista como um fim em si mesma, mas como um meio para integrar e transformar práticas que favoreçam o cuidado. A verdadeira melhoria ocorrerá quando o histórico de um paciente puder ser compartilhado entre diferentes serviços, permitindo uma continuidade no atendimento. Embora a saúde digital não resolva sozinha as desigualdades do SUS, ela pode aumentar a capacidade do sistema de alcançar aqueles que aguardam por atendimento. Essa é a proposta que a Agenda Mais SUS 2027–2030: 10 Propostas para o Futuro da Saúde Pública apresenta ao próximo governo.
Com informações jota.info