Às 4h30 da manhã, quando o som do Córrego da Inês fica mais nítido a 50 metros de casa, o menino Aleandro, de 6 anos, acorda animado para ir à escola. Separa o uniforme e se junta aos dois irmãos mais velhos. Juntos e de forma ligeira, eles percorrem, por 50 minutos, uma subida de quase dois quilômetros no meio da escuridão, em uma estrada estreita, com chão de terra, pedregulhos e cascalhos pelo meio do Cerrado.
A situação é complicada para os pais, que desistiram de estudar porque não havia apoio para chegar à cidade. O avô, que recebeu o certificado de autorreconhecimento de comunidade remanescente de quilombo, espera que os mais novos não passem pelas mesmas dificuldades do passado.
A conquista dos moradores foi celebrada, pois deixa mais próxima a possibilidade de demarcação e titulação do território. A certificação já impulsiona a comunidade a buscar políticas públicas que contemplem as necessidades dessas pessoas.
A família tem esperança de que a estrada tenha alguma iluminação. "Hoje é muito escuro", lamenta o pai. Os irmãos Aleandro e Alecssandro acreditam que vale a pena caminhar pelo meio da estrada, durante a madrugada, para conhecê as letras e fazer novos amigos. "A escola é local para conhecer as letras e fazer novos amigos", diz Aleandro, exibindo o caderno com sílabas copiadas do quadro.