Passado um ano da operação que deixou 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) ainda não concluiu as investigações sobre as circunstâncias das mortes e os responsáveis por elas. O Procedimento Investigatório Criminal (PIC) é presidido pelo promotor de Justiça Fabio Correa, Coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do MPRJ.
Segundo Correa, a operação de 28 e 29 de outubro de 2025 é considerada a mais letal da história da Segurança Pública fluminense. O MPRJ já colheu depoimentos de 255 policiais civis e militares que participaram da ação e de 61 pessoas presas. Os promotores também ouviram 45 parentes de vítimas fatais e acompanharam as necropsias realizadas pelo Instituto Médico-Legal (IML). A análise de laudos periciais e de imagens de câmeras corporais segue em andamento, com cerca de 4 mil horas de gravações obtidas.
As autoridades de Segurança Pública do Rio de Janeiro afirmam que as baterias das câmeras se esgotaram após horas de operação, o que impediu o registro integral da atuação de cada agente. Dois casos chamaram a atenção dos peritos por serem considerados atípicos: uma morte por disparos a curta distância e uma decapitação. Correa ressalta que ambos permanecem em apuração e que não foi possível realizar perícia no local do crime, o que dificulta o entendimento do que aconteceu.
Até junho deste ano, 27 policiais já tinham sido denunciados à Justiça pelo MPRJ por crimes como desvio de fuzis apreendidos, furtos de peças de carro e outros bens, invasões de domicílio e constrangimento de moradores. O levantamento também constatou que várias câmeras foram intencionalmente desligadas ou obstruídas.
Para a pesquisadora Maria Isabel Couto, do Instituto Fogo Cruzado, o saldo da operação é nulo ou negativo, pois a população continua submetida às mesmas rotinas violentas e a liderança do Comando Vermelho permanece a mesma. Carolina Grillo, Pesquisadora do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma que a operação foi um desastre e não teve impacto significativo no cenário de Segurança Pública. A Polícia Militar informou que não seria possível conceder entrevista; a Polícia Federal disse que não comenta investigações em andamento; a Polícia Civil e a Secretaria de Segurança não responderam ao pedido da reportagem.