O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou a Presidência do Brasil com uma virada histórica no segundo turno, somando 10,3 milhões de votos a mais do que no primeiro turno. Lula passou de 53,8 milhões para 64,2 milhões de votos, superando Flávio Bolsonaro (PL) por 4,4 milhões de votos. No primeiro turno, o petista estava 2,2 milhões atrás do adversário. O resultado representa a maior votação já recebida por um candidato à Presidência do Brasil.
Segundo especialistas, a virada foi impulsionada por intensas mobilizações nas últimas semanas e por deslizes do adversário. O cientista político Leonardo Martins Barbosa, pesquisador do Centro para Imaginação Crítica do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), afirmou que o cenário era adverso para Lula e que a margem de manobra era estreita. Já a cientista política Luciana Fernandes Veiga, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e da Fundação Getulio Vargas (FGV), destacou a redução da abstenção e a participação de eleitores com mais de 70 anos.
A coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (LAPPCOM) da UFRJ, Mayra Goulart, apontou que o principal gatilho para a mobilização foi a possível derrota de Lula após o primeiro turno. Ela ressaltou que ainda não há dados oficiais do TSE sobre o perfil do eleitorado e que a maior parte da virada veio da redistribuição de votos. Nas ruas e nas redes, uma campanha para "virar votos" mirou os 33,4 milhões de abstencios, equivalentes a 21,08% do eleitorado. O canal de WhatsApp "Exército do Lula", com mais de 10 milhões de seguidores, foi um dos pontos de mobilização, com o deputado federal André Janones (Rede-MG) coordenando missões e lives.
Os especialistas também citam a estratégia do medo adotada pelo PT, com a divulgação de notícias negativas sobre Flávio, como riscos de perda de benefícios sociais e mudanças na Constituição Federal. O cientista político Kleber Carrilho, da Universidade de Helsinque, comparou a tática a práticas já usadas por aliados de Bolsonaro. Além disso, medidas do governo federal nas últimas semanas, como a antecipação do calendário do Bolsa Família e um pacote de perdão de dívidas tributárias de microempreendedores individuais (MEIs), foram mencionadas, embora Barbosa avalie que esses mecanismos não foram decisivos.
Na avaliação dos cientistas políticos, a campanha de Flávio Bolsonaro perdeu fôlego no segundo turno e cometeu deslizes. A postura do senador nos debates, incluindo a insistência em ficar atrás de Lula no primeiro embate exibido pela Band, e o vídeo do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) com eleitores do Nordeste são apontados como prejudiciais. Para Carrilho, esses erros podem ter influenciado eleitores indecisos, embora eleitores bolsonaristas dificilmente mudem de voto. A conduta de Flávio, que lembra a do pai, Jair Bolsonaro, também foi citada como fator de receio entre eleitores.